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domingo, 2 de janeiro de 2011

E QUANDO NÃO HOUVER MAIS PRACINHAS...

E quando não houver pracinhas?
Coluna (Nas entrelinhas) publicada em 13/11/2007 no Correio Braziliense:

"Será uma pena se no dia em que os pracinhas não mais estiverem entre nós, a memória daquela gloriosa jornada de luta dos brasileiros tiver partido com eles"

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

"Como de hábito, o aniversário da República passará sem que as autoridades se dêem ao trabalho de comemorar a passagem com a solenidade que merece. E o esquecimento da Proclamação da República não é solitário. Jogar datas importantes no arquivo morto virou esporte nacional. É incompreensível, por exemplo, que o Brasil não comemore com entusiasmo, em todo dia 8 de maio, o aniversário da vitória dos aliados contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial.

O descaso com datas relevantes de nossa história tem raízes nos anos 70 do século passado, quando os governos militares buscavam apropriar-se dos símbolos patrióticos. Surgiu daí, como forma de uma suposta resistência antiditatorial, certa tendência historiográfica marcada pelo niilismo e pela negação pura e simples do que seria a história dita oficial do Brasil. Numa esdrúxula aliança do pensamento liberal com o petismo acadêmico, humanizar os personagens de nosso passado transformou-se em expediente para ridicularizá-los e caricaturizá-los.

Em qualquer país, e em qualquer período, a história é feita por homens e mulheres cheios de defeitos e fraquezas. O que isso permite concluir? Nada. Países com elevada auto-estima (expressão tão ao gosto do presidente da República) não voltam as costas a seus heróis a pretexto de dissecá-los criticamente. Também por uma razão simples: conhecer e valorizar os símbolos que ficaram para trás é essencial para reduzir o custo embutido na ultrapassagem dos obstáculos que estão pela frente.

Um bom exemplo é a República. Os críticos habituaram-se nos últimos anos a vender a idéia de que ela teria sido apenas produto de um golpe de mão, dado inclusive com o apoio de ex-senhores de escravos amuados com a Abolição de um ano antes. E ponto final. Atira-se com isso no buraco negro das coisas inservíveis mais de um século de luta republicana, anterior inclusive à Independência.

Há 119 anos, o poder imperial era removido e instalava-se a República. Regime que só se completou na Revolução de 1930, quando o voto praticamente universalizou-se e as eleições deixaram de ser decididas no bico de pena. É verdade, porém, que institutos da República Velha (1889-1930) subsistem entre nós, mesmo que com nomes diferentes. A Comissão de Verificação de Poderes, por exemplo, está bem viva nos conselhos de ética e nos processos de perda de mandato por quebra de decoro.

Hoje, como ontem, outorga-se à maioria parlamentar o poder de amputar, desde que lhe convenha (e à opinião pública), mandatos populares obtidos legitimamente na urnas.

Mas esse e outros pequenos defeitos da República brasileira não devem nos levar a reduzir sua importância. Não se inventou até hoje mecanismo melhor de governo do que consultar periodicamente a sociedade sobre como, afinal, deve ser conduzida a coisa coletiva. Sempre haverá, por certo, quem discorde do que a maioria decidiu. Paciência. A maioria pode até errar. Mas, estatisticamente, é sempre melhor que decidam mais do que menos.

Isso foi também o que concluiu o povo brasileiro no plebiscito de 14 anos atrás, quando rejeitou a volta da monarquia e manteve o presidencialismo. Foi uma nova proclamação da República. Mais uma. Resistente, essa moça. Por mais que falem mal dela, sempre que o eleitor é chamado para julgá-la ela se sai bem.

Quem sabe essas repetidas manifestações de apreço do cidadão pelo seu direito de escolher livremente os chefes de Estado e de governo não sensibilizam nossas autoridades? Seria bom. Até porque, convenhamos, o risco maior que corremos não é interpretar erradamente os símbolos de nossa história, mas — como dito no início desta coluna — vê-los desaparecerem na sombra do esquecimento.

Volto às comemorações do Dia da Vitória. Está na hora de fazer com que deixem de ser apenas festas dos próprios pracinhas e de seus familiares. O tempo implacável fará chegar o dia em que, infelizmente, não mais teremos aqui remanescentes da heróica participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Será uma pena se no dia em que os pracinhas não mais estiverem entre nós a memória daquela gloriosa jornada de luta dos brasileiros tiver partido com eles."


Cabe aqui lembrar ao autor do artigo que os pracinhas e seus familiares não organizam festas, nem as cambaleantes Associações de Veteranos, mas sim as Forças Armadas, que ano após ano, sem modismos ou partidarismos, lembram os feitos daqueles que foram combater os chucrutes do outro lado do Atlântico.

A culpa deles não serem lembrados não é do Governo, pois o Governo em si é um espelho do que o Povo brasileiro é: sem memória.

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